Metalinguagem e a crise da meia idade de Woody Allen e Pedro Almodóvar

Woody Allen tem 75 anos, filmou mais de 489436150743150 títulos desde o início de sua carreira, há quase meio século, e é o ícone das comedinhas psicológicas de tipos intelectuais de língua afiada. É um diretor preguiçoso, vaza microfones e faz péssimos planos-sequência, e é a maior referência em termos de auto-referência do cinema de todos os tempos. Mas ele não liga pra isso. Woody Allen é prêmio Guinnes de criação do maior número de personagens tão cheias de neuroses e manias quanto o próprio diretor. É justo, terapia garantida.

Pedro Almodóvar, 51 anos, produziu seu primeiro longa em 1980, e é o trevo da sorte do cinema latino, com uma sucessão sempre muito bem executada de tramas sexuais em geral dramaticamente profundas e devastadoras. Gosta das prostitutas, das travestis e seus heróis são sempre mulheres. Ou homens femininos. Freudiano, acredita até hoje no desejo sexual como a força motriz primária da vida humana, característica sempre presente em seus filmes.

Vinte e quatro anos separam o nascimento de dois dos cienastas mais aclamados da atualidade, e não há nada que aproxime efetivamente a tragetória dos dois nomes, exceto o alto nível de popularidade entre a crítica, e as rodinhas cults dos cafés teatros do novo centro pseudo-cultural higieneticista de São Paulo, melcoo. Mas o que as pessoas não sabem (ou até sabem mas nunca me disseram), é que mais do que nunca Allen e Almodóvar afundaram a grande concha da dramaturgia em seus selfs, e lançaram dois títulos declaradamente metalinguísticos, quem sabe fruto da tão temida (terceira) idade: Los Abrazos Rotos e Whatever Works.

Vamos por partes.

Polanski, a merendeira

Antes de mais nada, deixo claro que nunca fui muito fã dos trabalhos de Woody, mas confesso que fui muito bem instruída (nada como ter um bom e rabugento irmão mais velho) desde o princípio da vida a não gostar muito do diretor. Sempre achei (uhum) a auto-referência exasperada um quê de fracasso para enxergar as verdadeiras e diversas nuances do mundo. Mas rompi o preconceito, estudei, e finalmente Woody me convenceu, embora eu sempre vá achar que ele não é tão bom diretor quanto roteirista. Mas enfim, o cara é bom. Eu gosto do senso de humor polido, gosto da já comentada abordagem freudiana, e na maioria dos casos, gosto de suas personagens femininas. Mas nunca gostei de sua atuação, sempre achei um tanto prepotente.

O fato é que depois de mais de 40 anos de uma carreira presunçosa, um filme como Tudo Pode Dar Certo não soa como pura coincidência: um velho do alto de seus mais de 70 anos abre o longa maldizendo o mundo a um grupo de amigos, que pedem para que este conte sua história. Estúpidos, ele diz. Existe muito mais gente a espera de que ele conte sua história. Mas quem? Os telespectadores. Boris levanta-se, caminha até a câmera e reafirma sua superioridade: ele é o único homem capaz de ver o mundo como um todo, ele é um gênio. E, obviamente, incompreendido. Afinal, só Boris poderia enxergar o mundo além do mundo previsto.

Rabugento, neurótico e auto-suficiente, o velho Boris apaixona-se por uma jovem caipira, inocente e graciosa. E, pra sintetizar, é trocado por um homem mais jovem. Pra ser ainda mais característico, ele tenta o suicídio pulando a janela, e fracassa ao cair em cima de uma outra jovem (mas não tão jovem) moça, com quem vive feliz para sempre. Afinal, tudo pode dar certo.

Um final feliz para um homem velho, neurótico e metido a gênio, o único capaz de enxergar todas as faces do mundo. Esse homem se chama Woody Allen. Indiscutível. E este filme só serviu pra confirmar a suspeita de que ele sempre foi chegado MESMO em menininhas…

A cólera do rir

Mas descarado mesmo é o caso almodovariano.

Em Abraços Partidos, o dramaturgo Mateo Blanco perde a visão e o amor de sua vida, e partir daí, assume uma nova identidade, a quem dá o nome de Harry Cane. O furacão conhece a belíssima Lena no casting para a primeira comédia que se propõe escrever. Mas Lena é casada com um homem muito influente, e o dramaturgo terá de rodar sua comédia diante da maior tragédia de sua vida afetiva.

Mateo é um homem fadado: sua comédia fracassa em consequência dos infortúnios provocados pela escolhas feitas de coração, e ao tentar buscar o final feliz para sua vida, perde para sempre seu grande amor. Quando deixa de ser Mateo para se transformar em Harry Cane, a vida do dramaturgo vira de cabeça para baixo, e como o poderoso furacão que o nome sugere, ele vai repassar todas as etapas de sua vida em busca de qualquer coisa que te traga emoção. E esta qualquer coisa é sua tragecomédia Chicas&Maletas.

Eu adoro o Almodóvar, e pra quem conhece sua trajetória, sabe que ele nunca se propôs até hoje ser um diretor de comédias. Ainda que seus filmes tenham qualquer carga de comicidade, Almodóvar sempre será o grande escritor de dramas humanos.

Outra característica forte de seus filmes é que pela primeira vez em toda a carreira ele optou por trabalhar com um protagonista masculino. Um homem protagonista e cedo, ou seja, que só consegue olhar para dentro de si. E dentro de si é onde ele pretende devastar como um furacão. Harry Cane…

Não suspeita que a este homem seja justamente um dramaturgo? Mais: que esteja em busca da comédia que nunca teve que, por sua vez, finda em um grande dessabor? Eu acho suspeito. Aliás, nunca suspeitei tanto que Chicas&Maletas possa realmente ter passado pela pena de Almodóvar sem sucesso. E que, quando resolveu contar uma tragédia masculina, percebeu que não conhecia história melhor do que a sua: um homem fadado ao drama, ainda que seja o literário.

Um velho sozinho, neurótico, rabugento, e em posse de todas os olhos do mundo. Um dramaturgo de comédias frustradas em busca de uma revolução interior. Pode ser que eu esteja enganadíssima, mas pra mim nunca um filme de Woody Allen ou Pedro Almodóvar soou como reflexo de um momento tão inseguro.

De qualquer forma, isso são apenas especulações…

1 Comentário

Arquivado em Na prateleira, Um de tudo

Uma resposta para Metalinguagem e a crise da meia idade de Woody Allen e Pedro Almodóvar

  1. Ahhh Nêta… que maravilhoso seu texto. Parabéns!

    Quanto aos diretores objeto do texto, o que falar?

    Primeiramente, importante destacar que acho (com quase toda certeza) que o Woody Allen é um louco desvairado que produz ótimos roteiros e quase sempre os executa de qualquer jeito no filme (falo isso pq não gosto dele como diretor e nem como ator, assim como você).

    Ele caga e anda para a fotografia, edição, som e etc hahaha! Puta bicho preguiçoso mesmo, bela definição.

    Mas ele tem histórias profundas, vai lá no fundoooo buscar alguns sentimentos escondidos dentro da gente. Isso faz com que ele seja admirado, pelo sentimento e não pela técnica.

    Já o Almodovar eu gosto mais, mas também não sou louco de paixão por ele não. Quando a coisa fica “cult” demais nos filmes dele, eu piro o cabeção. Mas com ele eu pelo menos consigo ter um entrenimento sem sair chocado do cinema hahaha.

    No mais, acredito que se algum deles está na crise da meia idade é o Almodovar, pq o Woody Allen já passou faz tempo viu… Pra mim, ele ta quase na caducagem hahaha (com o perdão do termo, acho ele gênio, mas ta velhinho né?)

    Entre ambos, fico com o meu “pop”, porém magnífico Clint Eastwood!

    E vc nêta? vc é demais.

    Amo-te.

    Beijo

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