A saga da Pixar segundo Toy Story

Ganhei de aniversário na semana retrasada o volume I da seleção de curtas-metragens da expert em animações campeãs de bilheteria, Pixar. A coleção traz 12 dos primeiros curtas produzidos pela guangue de John Lasseter, com narrativas bastante líricas como o triste sonho de Red (Red’s Dream), um monociclo que sonha em fazer brincadeiras mil se apresentando num circo e, sem sucesso, sofre o ostracismo do cantinho de parede de uma loja de bicicletas.

Extremamente simbólico, o curta de 1987 representa exatamente o sentimento da produtora diante do contexto de seu lançamento. Ainda sob a sombra do monopólio dos desenhos animados da gigantesca Walt Disney, e sem segurança para escrever seu próprio longa, a embrionária Pixar sonha tão alto no final da década de 80 quanto o monociclo Red: procurava a chance para fazer seus próprios malabarismos – a diferença crucial é que a Pixar tinha todos os aparatos criativos e tecnológicos para desenvolvê-los e já procurava seu espaço no mercado; já Red, encerra o curta com o saldo magro da companhia de uma goteira, um balde e um azulejo frio.

A saga dos brinquedos

Pra quem não sabe, a estreia da Pixar na indústria cinematográfica data de 1995 com o lançamento de Toy Story, que imprimia também os termos da parceria de distribuição dos selos Pixar e Walt Disney. Curiosamente, o longa de estreia da maior produtora de animação digital do mundo conta a história da relação entre Woody, um cowboy oldschool e antigo brinquedo favorito de Andy, e o intergalático Buss Lightyear, um pretesioso patrulheiro do espaço. Quando estes e os demais brinquedos do quarto de Andy se veêm ameaçados por personagens externas, surge a necessidade de se unir para combater o mal: nasce a infantaria dos brinquedos.

Ideia genial, sucesso garantido. Os brinquedos saem das gavetas e se aventuram pelo mundo dos gigantes, simbólica representação do status da pequena e divertida Pixar diante da grande parceira Walt Disney. Os brinquedos vencem, que bom.

Eternizar ou morrer em sua praia preferida?

Passada a crise do segundo filme com o sucesso de Vida de Inseto, a Pixar lança um novo desafio para os briquedos de Andy, em 1999. Roubado por um colecionador de bonecos, o cowboy Woody corre o risco de ser enviado para um museu de brinquedos no Japão. Desta vez, o dilema do Woody é: viver para sempre atrás de uma vitrine, ou voltar para a casa de Andy, onde todos o amam, mas sem garantia de sobreviver mais um ano?

Com o lançamento de seu terceiro título, Toy Story 2, a Pixar se estabelece como produtora de desenhos animados e começa a lançar um sucesso após o outro. Os títulos são os mais diversos: Monstros S.A., Procurando Nemo, Os Incríveis, Carros, Ratatouille, Wall-E, Up. E suas personagens, minoritariamente humanos.

Ponto. A Pixar supera os riscos de “sair de casa” sem abrir mão de sua receita de sucesso: melhor do que Woody, a Pixar entra voluntariamente para o museu dos brinquedos, eternizados pelo sucesso e amplificados pela parceria ainda em atividade com a Disney, mas sem abandonar o aconchego da família. E ainda resgata Woody com saúde e uma nova namorada.

Brinquedos, a revanche

15 anos depois da estreia da produtora (e da parceria com a Disney) com Toy Story, a morada de Mickey Mouse arremata a produtora de animações digitais pela quantia de 7,4 bilhões de dólares. Uma renovação na parceira, claro, com um ooooutro tipo de contrato. O lançamento do ano: Toy Story 3.

No terceiro episódio da saga, o pequeno Andy passa para uma nova etapa em sua vida: cresce e entra na faculdade. Para seus brinquedos, o momento também é de transição. Doados para uma creche cheia de crianças babonas, assassinas e barulhentas, os velhos toys são desafiados a transpor uma nova fase de sua história. A ideia é fugir das novas grades… ou se adaptar.

Até onde o desejo da Pixar não é sair correndo das mãos da Disney? Eu é que não sei.

O fato é que o primeiro título lançado a partir da cisão é a animação 2D A Princesa e o Sapo, que repete as antigas fábulas das realezas e maltrapilhos com a coincidência Manoel-Carliana: a primeira princesa negra em cartaz ao lado da primeira Helena negra – a única vantagem.

Woody, contamos com você para a revanche!

2 Comentários

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2 respostas para A saga da Pixar segundo Toy Story

  1. É realmente curioso como Red e Toy Story expressaram a trajetória da Pixar. Mas acho a mensagem de Vida de Inseto ainda mais forte. No filme, as formigas colhiam e armazenavam comida para todo o inverno e ainda tinham que alimentar gafanhotos parasitas (pra quem não sabe, o contrato da Pixar com a Disney fez com que a segunda lucrasse bem mais que a primeira com Toy Story). Um dos formigos tinha várias idéias criativas para mudar a dinâmica da colheita, mas sempre foi podado pelos colegas. Até que ele consegue organizar uma revolta contra os predadores e o formigueiro se liberta dessa ditadura. Acho que vc gosta tanto e se identifica tanto com essa história porque seu jeito de produzir é tão anárquico quanto o deles. QUE BOM. snn

  2. Carol Addario

    Genial! As produções da Pixar são bastante emblemáticas mesmo (post sobre o assunto em breve), e de alguma maneira refletem o estilo de vida e de produção da empresa. O resultado são filmes com bilheterias astronômicas e narrativas extremamente criativas e existenciais, como é o caso de Toy Story, Vida de Inseto e seus demais títulos.

    A analogia entre Toy Story e a própria Pixar tem seus primeiros traços delineados com a figura do próprio John Lasseter e seu time: Tal qual Woody, Buzz, o senhor cabeça de batata e os outros brinquedos, o time da Pixar trabalha com o intuito de gerar entretenimento e diversão, função primordial dos brinquedos. Quando eles ganham vida, o quarto de Andy nunca mais será o mesmo. Nem a indústria de animação. Foi o que a Pixar fez.

    Em termos de bilheteria, a primeira revolta dos brinquedos de Toy Story rendeu uma bilheteria de mais de US$ 320 milhões, elevando a saga dos bonecos como a maior bilheteria do ano nos EUA.

    Já em Vida de Inseto, que representa o mesmo gênero de narrativa de Toy Story, mas com o exército já consagrado de formigas trabalhadoras e seus primos de espécie, a grande sacada talvez incompreendida pelo público, é que pela primeira vez elas são só dão duro no trabalho para conseguir o que querem, mas descobrem soluções tão criativas quanto as cigarras que vivem do canto, e se libertam do status de oprimidas (rs).

    A sacada de mestre de Vida de Inseto é a de não medir forças com os predadores, mas encontrar artimanhas para driblar os impasses da vida. A colheita criativa de Vida de Inseto rendeu mais de US$162 milhões nos Estados Unidos, a alforria dos bichinhos, e o espaço da Pixar no mercado de animação.

    Falo mais sobre isso em um novo post, snn.

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